Há uma geração crescendo cercada de conforto, mas estranhamente cansada antes mesmo da caminhada começar. Quartos climatizados. Comida chegando em minutos. Vídeos infinitos deslizando diante dos olhos. Prazer imediato. Silêncio evitado. Espera cancelada. E, aos poucos, sem perceber, algo invisível vai desaparecendo: o fogo interno de desejar.
Porque o desejo nasce da distância. Daquilo que ainda não chegou. Da fome que ensina o corpo a procurar alimento. Da ausência que move a alma em direção ao encontro. Quando tudo vem rápido demais, o coração desaprende a buscar. A criança que nunca experimenta o tédio talvez nunca descubra a própria imaginação. A mente que nunca espera talvez não desenvolva profundidade. Quem nunca atravessa pequenas frustrações pode desmoronar diante das grandes.
Existe uma tristeza silenciosa no excesso. Não a tristeza da falta extrema, mas a do excesso que anestesia. Como alguém sentado diante de um banquete permanente que já não sente sabor em nada. E então surge o paradoxo do nosso tempo: nunca tivemos tantos estímulos, e nunca houve tanta dificuldade em sustentar interesse, presença e sentido. Talvez porque a vida precise de pausas. De intervalos. De vazios férteis.
O tédio não é apenas ausência de entretenimento. Às vezes, ele é o espaço onde a criatividade respira. Onde a mente organiza emoções. Onde o ser humano encontra a si mesmo sem distrações. Há um tipo de amor que protege tanto que impede o outro de criar músculos emocionais. Mas amar não é eliminar todos os desconfortos do caminho. É preparar alguém para atravessá-los. É ensinar que nem toda vontade será atendida imediatamente. Que algumas respostas demoram. Que certos livros são difíceis. Que relações exigem paciência. Que crescer envolve suportar frustrações sem perder a delicadeza.
Educar, no fundo, talvez seja isso: substituir dependência por autonomia. No começo, conduzimos a vida de alguém pelas mãos. Depois, caminhamos ao lado. Mais tarde, observamos de longe. Até que chega o dia em que nossa presença não precisa controlar, apenas existir. Como um porto silencioso que não prende o barco, mas continua ali caso ele precise voltar. E talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da vida moderna: resistir à tentação de preencher todos os vazios. Porque alguns vazios não são falhas. São terrenos onde o desejo aprende a nascer.
“A metáfora sobre a jornada da paternidade/maternidade. O papel dos pais muda com o tempo: eles começam como motoristas da vida dos filhos, passam para o banco do passageiro, depois para o banco de trás e, no fim, tornam-se o “estepe” — acionados apenas em emergências, permitindo que os filhos os procurem por amor e não por dependência.”

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